O maior case de costumização (usar para o próximo carnaval)
A idéia surgiu um dia antes da quarta-feira de cinzas e demorou até agora para estar aqui. Espero que valha a pena perder esses minutos escrevendo e desperdiçar um pouco de pele morta dos meus dedos enquanto digito.
Todo mundo conhece o clássico:
Se você pensa que cachaça é água,
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão
O maior case de costumização começa na segunda linha da segunda estrofe:
Pode me faltar tudo na vida
(...)
As reticências devem ser preenchidas com o que faz mais falta na vida, segundo o critério de quem canta.
No carnaval deste ano ouvi de tudo: arroz, feijão e sal (adaptação de algum hipertenso que andava cansado de arroz e feijão insosso); amor, limão e sal (algum hipertenso sentimental); mamão, melão e tal (algum vegeteba com problemas digestivos).
O maior case de costumização permite que você escolha, de acordo com sua opinião, as coisas que você mais ama e que fariam mais falta na vida caso você as perdesse. Desde que não fosse, é claro, a danada da cachaça.
Já que a marchinha nasceu para ser customizada – desconfio, inclusive, que a idéia de customização tenha surgido daí – estranho muito o fato de nenhuma marvada industrial a ter customizado para o slogan. Caninha 51. Pode faltar tudo na vida, ela não.
Mario Vargas Llosa
Com meu gato no colo, vejo o Llosa na TV. Ele diz que já estudou em colégio militar, que queria ser presidente para evitar o fim da democracia no Peru, que não acreditava em livros de humor. Mas, pra mim, e apenas pra mim como meu gato pode confirmar, ele diz: tenha calma, o que você vive agora pode determinar quem você é, mas não o que você irá fazer para o resto da vida.
Paro e ouço a minha vizinha adolescente. Ela briga diariamente com a mãe. Mas briga só porque não pode matar. Tenho certeza - nunca nem cruzei direito com as duas no elevador pra saber disso - mas tenho certeza de que era isso o que ela queria. Normal. Todo mundo já quis isso pra alguém. Mas, hoje, estranhamente elas estão em paz.
Logo aparecem as memórias do hospital. Ficar numa maca tomando soro na veia não é nada legal. A veia sabe disso. Ela está doendo pra dizer que foi contra, que resistiu, mas que a injeção insistiu.
Sento para trabalhar. Sim, é hora de trabalhar. Sempre é hora de trabalhar. Tem um Henry Ford dentro de mim que me convence disso a todo o momento. Está me convencendo agora. Mas tem uma Macunaíma que diz não. Não, não e não. Henry? Macunaíma? Vou ignorar os dois.
Estou ignorando os dois nesse momento. Estou tentando esquecer do gato, do recado de Llosa pra mim, da vizinha, do passado, do hospital, do futuro, estou tentando esvaziar a minha cabeça.
Parece - e não sei por que a gente diz que parece se o que a gente sente é que é - que não vou conseguir. Não está dando. Não vai dar. Cabeça vazia... Cabeça vazia... Cabeça vazia...
Vou tentar só mais uma vez.
Ostra
Você, que veio dela, deveria saber o que ela sente. Porque o que ela diz é mera dissimulação. Desconfie. Aprenda a sentir o que dói nela. Porque ela não vai dizer. E o que ela disser não é verdade. É outra coisa. Talvez o oposto. Com certeza é o oposto. Mas talvez não seja. Ao menos se você soubesse qual a matemática do sentimento dela. O que ela busca de verdade, lá no fundo. Qual é o grito que ela engole? Qual é o choro que ela prende? Vomite. Chore. E faça isso pra mim, que sou sua filha. Não faça para um desconhecido qualquer. Para quem vende soluções pasteurizadas para o sofrimento alheio. Você, caso não tenha percebido, sou eu. Eu escrevo isso pra mim e me chamo de você pra ver se assim prendo a minha atenção. E a sua atenção, mãe. Porque o que eu quero dizer é que posso te ajudar com as suas angústias, chateações e síndromes. Estou aqui pra você. Esteja aí pra mim. Posso ser seu pastor. E, assim, nada nos faltará.
Livros que viram filmes que viram livros.
Qual o caminho da cultura? A cultura, essa palavra grande, íntima de poucos. Como aproximar o povo do próprio povo criador da cultura?
Interessar-se por cultura é interessar-se por si mesmo. É ver em peças, livros, quadros, uma biografia que é sua. Mesmo que não se saiba.
O retratato, o dito, o lido são humanos. São coisas nossas. Mesmo que não se perceba.
Quando todos irão se aproximar de si mesmos?
O caminho parece ser o cinema. Que tira o humano de outras culturas, massifica, facilita e ajuda na digestão.
A prova parece ser as livrarias: que voltam a editar livros que já existiam, mas que viraram filmes e que agora podem voltar a virar livros, só que com uma etiquetona beeem grande. Do tipo “Do filme _____”
Não é o melhor jeito. Não devia ser assim. Mas, se isso ajudar a aproximar a cultura, essa palavra teimosa, difícil de engolir, da cabeça de todos, que assim seja.
Caio Fernando Abreuzado
Nem todas as perguntas têm resposta. Parece tão óbvio e ao mesmo tempo tão pouco óbvio. Porque, se não tem resposta, como é possível se conformar com a falta dela? É óbvio não ter respostas para todas as perguntas. Mas também é óbvio não se conformar com a falta de respostas para todas as perguntas.
Quinta ou sexta-feira, tinha uma pergunta. Uma pergunta que não fiz, mas que queria ter feito. Queria perguntar: o que aconteceu ontem à noite? Por que a tristeza? Por que você não sorri? Foi ela? Você não diz que gosta de estar por perto? Então me mostra.
Como de costume, pouco falei.
Mas você queria que eu falasse. Queria que eu perguntasse. E, como eu não agi, você me fez perguntar.
- Pergunta que eu falo.
- Eu tô perguntando.
Eu não sabia o que estava perguntando. Eu sabia o que estava perguntando. Eu sabia ou não sabia o que estava perguntando?
- Ainda tá foda. – Foi a resposta.
Tive certeza de que não sabia o que estava perguntando. Eu queria saber da sua noite frustrada e não sabia que tinha feito parte da sua noite frustrada. Eu tinha? Eu nem estava lá. Eu estava lá?
Ainda tá foda. Ainda tá foda. Ainda tá foda. Fiquei pensando muito nisso. Também fiquei me perguntando o que eu fiz pra Ainda estar foda. Mas essa pergunta também não tinha resposta. Não tinha e não tem. E eu só fico pensando que Ainda tá foda e eu não quero ser a culpada de nenhum Ainda tá foda.
Eu quero ser amiga. Eu quero trocar amor. Amor só é bom quando se troca. E, pra trocar, não pode Ainda estar foda. Tem que querer trocar amor. O mesmo amor.
Comendo lichias, lembrei de minha avó.
Você não imagina ter 60 e poucos anos e não saber de alguma coisa. Ou não ter ouvido falar. Ou não saber e nem ter ouvido falar, mas com a sensação de que poderia muito bem conhecer ou ter ouvido falar sim.
Você não imagina, claro, porque tem menos de 60 e poucos anos. Muito menos. Nem 25.
E, aos 25, todo mundo tem certeza de que muito antes dos 60 - quem dirá dos 60 e poucos -, já saberá de muita coisa. Quase tudo. Ou pelo menos terá ouvido falar.
No máximo aos 40 anos, sua lista de coisas para fazer na vida já estará completa.
Conhecer o Havaí, Uganda, Rússia e Cuba. Cuba só se for logo.
Passar um mês numa tribo indígena.
Ler todos os clássicos.
Assistir a todos os clássicos.
Aprender a gostar de música clássica.
Tocar violão.
Tocar piano.
Tocar numa banda.
E, por fim, tocar o foda-se e se aposentar.
Mas tudo isso é ilusão. Mais densa que uma nuvem de poeira em São Paulo.
Porque, aos 40 anos, você não vai saber e nem terá ouvido falar de quase nada. De quase nada do que existe nesse mundo para se conhecer ou ter ouvido falar.
E talvez, quer dizer, muito provavelmente, você se torne avó (ô) sem saber o que são lichias.
Sem conhecer sua cor, sua forma, seu gosto, seu modus operandi.
E talvez, quer dizer, muito provavelmente, lá pelos 60 ou 60 e poucos anos, você se porte como uma criança quando colocar uma lichia na boca pela primeira vez.
Ciúmes.
- Você pode conversar com qualquer homem, amor. Desde que já não tenha visto o pinto dele.
Consumismo.
(no supermercado)
- Filha, vamo logo que você já tem tudo.
- Não tenho tudo nada.
- Tem sim.
- É, mas tá faltando aquilo.
Melting.
- Que calor dos infernos!
- Jura?
- Tá mau-humorada, hein?
- É esse calor dos infernos.
- Jura?
- Ih, virou papagaio?
- Pelo menos eu não acho que o calor é só em mim.
- Desculpa, é que eu tô mau-humorada. É esse calor, os pernilongos...
- Quer que eu feche a janela?
- Tá louco? Com esse calor?
- Difícil...
- O que você disse?
- Que assim não dá.
- É, assim não dá. Você acha que o ventilador é só seu.
- É que os pernilongos estavam me atacando.
- Estavam. Agora é em mim que eles... MATEI!
- Matou?
- Você não acha que os pernilongos de arriscam demais?
Amigos (.!?)
De zero a dez quanto você gosta de mim nesse exato minuto? Dez! - foi o que ela não respondeu pra ele. Era difícil gostar tanto e fazer tão pouco a respeito. Ela não podia fazer nada. Ele, a contragosto, entendia. Ela ainda pensou em responder zero, para acabar com qualquer expectativa. Mas não era verdade. Pensou no cinco, mas era muito abaixo da média. E finalmente não conseguiu ir além do sete, porque simplesmente não queria admitir. Foi então que ela encontrou a única resposta possível: o silêncio.
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batuta blorgado |
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